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Alô. Alô. Responde.


Ou De como as mensagens de texto estão nos deixando super editados.


Quando as coisas eram mais difíceis a gente valorizava mais a conversa?

Não estou aqui levantando nenhuma bola que já não tenha sido levantada.  Vira e mexe há matérias sobre o assunto em revistas, blogs e até programas de TV do tipo “veja a opinião dos especialistas”. Ainda assim, acho que vale o papo e uma reflexão sobre.  É fato que vivemos sob a era das mensagens de texto e isto, de certa forma, está fazendo a gente emudecer  um pouco, não acham?
SMS,  Facebook Messenger, Skype e o tão adorado, amado, idolatrado, salve, salve (inclusive por esta eu vos fala) Whatsapp. São vários os recursos que a Nossa Senhora da Telefonia e das Redes 3G colocam a nossa disposição para nos comunicarmos com qualquer um, sem que nossas pregas vocais tenham que entrar em ação. É ótimo:  “Tá chegando?” “20 min”.  Em lugar do:

Tuuuuu... Tuuuu... Tuuuu...
- Alô?
- Alô. Tudo bem?
- Tudo e você?
- Tudo. Onde você tá?
- Tô saindo de casa agora, pegando o carro.
- Vem logo!
- Daqui a 20 minutos estou aí.

Mais prático. Mais rápido. Mais econômico. Nada demais. Nada de mal.
O que acho que está ficando esquisito é que começamos a usar as mensagens de texto (e aqui falo por mim, não estou só apontando o rabo alheio) para tratar de coisas que seriam. por excelência, da esfera do diálogo. E quando digo diálogo, não me refiro ao diálogo literário, e sim àquele do tipo em que o tom de voz, a cadência da fala e até a respiração, são tão parte da mensagem quanto as palavras... Enfim, um diálogo old school, estilinho Grahan Bell.

Usamos mensagens de texto para discutir problemas familiares, para consolar um amigo em crise, para relatar uma experiência de grande felicidade, para falar de amor e de dor. Para tudo, enfim.  Nossos dedos ganham em agilidade, mas não será esse, praticamente, o único ganho?



Sinto que estamos adquirindo uma preguiça de conversar. Falta paciência para esperar o tempo do outro, as mudanças de assunto e voltas no raciocínio que naturalmente ocorrem numa conversa falada. O texto é objetivo. Eu pergunto, você responde, nem que seja com um emoticon... Como foi muito bem dito na matéria da Super que eu linkei acima (quem não clicou, sugiro que o faça), ao escrevermos elaboramos, em certa medida, a imagem ideal de nós mesmo que queremos passar ao outro, estamos no controle. Escolhemos as palavras certas, temos tempo para pensar no que responder. Não somos traídos por aquele ligeiro gaguejar quando dizemos SIM, querendo dizer NÃO. Não nos mostramos frágeis, quando, pegos de surpresa por uma resposta negativa ou notícia inesperada, nossa respiração, involuntariamente, fica acelerada e curta escancarando nossa decepção, raiva ou irritação perante nosso interlocutor. Não. Dá tempo de respirar fundo, escrever uma frase de efeito, colocar o “rs” ou o “hehe” para disfarçar... Da mesma forma que não temos que lidar diretamente com certa irritabilidade, certa frieza, certa efusividade “fora de hora” ou qualquer outra reação do outro que contrarie nossas expectativas ou fuja do script mental que a gente bolou para aquela conversa. Fica o benefício da dúvida. Uma frase dúbia, uma palavra genérica. Fica o dito pelo não dito.  Ah, o que será que a pessoa quis dizer? Sei lá. Escolha pensar o que quiser ou o que for mais confortável. 
Às vezes apelamos para aquele monte de emoticons à nossa disposição. Ironicamente, apesar do “emo” como sufixo, muitas vezes são a coisa mais fria de que podemos dispor num diálogo. A ferramenta que usamos quando o desconforto (ou a preguiça) da conversa é tanta que até escrever vira um esforço do qual nos dispensamos recorrendo a uma emoção de catálogo, gentileza de linha, amizade pré-fabricada, amor de prateleira.

Como falei no início não estou aqui para demonizar ferramentas de comunicação que são essencialmente ótimas, nem passa pela minha cabeça aboli-las da minha vida! Mas que pretendo, sem sombra de dúvida, ouvir mais vozes em 2013, isso pretendo. A minha e a alheia. Frases com sorrisos ou palavras que carreguem lágrimas, não importa. Menos conforto. Mais risco. Menos controle. Mais emoção.

Alô! Alô!


 

Comentários

Marcelo Nayar disse…
Oi, Lu!
Achei ótimo seu comentário. Concordo plenamente a respeito do disfarce de emoções, pois isso todos fazemos, não é? Triste que o façamos tanto e tão sem compromisso através de SMS, WApps e tais.
Acho também que há uma necessidade, na maioria das pessoas, de "dizer alguma coisa". E, também em muitos, de que nos seja dito algo. É mais ou menos assim: Fulano está se sentindo de uma determinada maneira, e pretende ser ouvido, consolado, que lhe falem alguma coisa que o faça sentir melhor... e tem essa bateria de meios não-físicos, pelos quais Fulano pode intrometer-se na vida de Ciclano a qualquer momento. Então Ciclano recebe a tal mensagem, comentando, xingando, choramingando, etc. Ciclano "precisa" falar alguma coisa, qualquer coisa, para satisfazer ambas as necessidades: a de Fulano e a própria. Sem muito compromisso, sem raciocínio demais, sem demorar. Cheio de emoticons, de frases meio sem sentido, começo ou fim. Até, pode-se achar, babaquice.
Pois é. Precisamos. E utilizamos a tecnologia para nos sentirmos "ligados", conectados e bem antenados.
Do lado disso, a perda de fluência no uso da língua portuguesa na comunicação corriqueira e que não envolve grandes riscos além de algum mal-entendidos, realmente não é soberania dos torpedos, Messenger ou Viper, e sim dos tempos que vivemos, a preguiça e outras pragas. E olha que eu sou um gringo na terra dos brasucas, mas não fico alheio, não!
My two cents, é claro...
Abs :P
lulooker disse…
Sim, a necessidade de nos conectar ao outro é eterna e vai encontrando novas formas sempre e sempre através dos tempos. Formas que vamos julgando mais adequadas, por vezes, tarde, percebemos que não eram tanto, que a conexão não ocorreu de fato.
Obrigada pela visita e pelo comentário!
Um abraço!

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